Seguindo com a série de posts sobre o processo de produção do meu álbum mais recente, hoje vou escrever um pouco sobre o processo central de uma produção desse tipo: a gravação!

Pra próxima semana estou preparando um post sobre microfonação, tipos de microfones e detalhes técnicos. Mas hoje, assim, como nos post anteriores quero falar um pouco sobre o processo, sobre os cuidados com uma boa gravação e especial sobre como eu tenho encarado estas situações que muitas vezes tiram a saúde física e mental de muitos músicos (inclusive a minha!).

REC! Valendo!

E agora? tá valendo? mas eu tava tocando tão bem antes de começar a gravar, o que aconteceu? Onde foram parar minhas ideias brilhantes e minha execução indefectível?

Brincadeira à parte, toda vez quando alguém diz “gravando!” tudo muda. Mas, no geral quem mais muda somos nós mesmos, ou melhor, mudamos nossa forma de ouvir, nosso nível de exigência e nossa sensibilidade. É muito comum (muito mesmo) ver músicos entrando em parafuso em estúdio, músicos incríveis que por conta do stress e do cansaço de uma gravação importante ficam exaustos física e mentalmente. Eu já experimentei essa sensação algumas vezes, não recomendo. Por outro lado, considero necessária como um estágio inicial de contato com a dura realidade que é se ouvir…

Nos últimos anos venho gravando muita coisa, tanto projetos meus como músico, produtor ou arranjador, quanto atuando como técnico de gravação e mixagem em projetos de outras pessoas. Tenho aprendido bastante sobre este complexo labirinto interior que se abre toda vez que apertamos a tecla REC. É preciso aprender a lidar com o nervosismo, o preciosismo, o desleixo, a desorganização, a falta (e o excesso) de foco, as variações de rendimento, a auto-estima, o orgulho e a vaidade. Enfim, poucos divãs acessam tão profundamente a mente de um músico (profissional ou amador) quanto um sistema de gravação.


Com o tempo vamos aprendendo a lidar com a delicada necessidade de nos olharmos neste espelho ingrato. Peço ao leitor que não me considere um pessimista, apenas retrato aqui algumas agruras que vivi e tantas que observei. Felizmente tenho alcançado algum êxito nos últimos tempos, graças a três coisas:

1) por mais óbvio e insistente que possa parecer, não existe melhor remédio (preventivo!) para as dores de cabeça de uma gravação quanto uma boa pré-produção (como já relatei nos dois últimos post sobre planejamento executivo e artístico)

2) Não deixar NADA para as etapas seguintes!!! Na mixagem, se faz mixagem, não milagre… risos 

Isso também pode parecer simplista, mas não é. Muitas e muitas vezes deixamos para a próxima etapa (por preguiça, falta de planejamento, inocência ou desespero) correções e ajustes que deveriam ser feitos no momento da gravação (ou já deveriam ter sido previstos na pré). Este é um dos fatores de maior desilusão em estúdio. Nos enganamos dizendo: “Ah, na mix a gente dá um jeito nisso”. Não dá! (Às vezes até dá… mas eu não garanto). As etapas de pós-produção como a mixagem e a masterização irão tratar e trabalhar o áudio captado podendo altera-lo ainda em vários parâmetros, mas ainda assim estarão sendo feitas sobre um audio já captado (e editado), ou seja, se a matéria-prima não for boa…

3) Autoconhecimento: eu sei… parece auto-ajuda… É… talvez até seja. Mas… é importante saber quem você é, como você (e seu instrumento) soam, quanto de estudo e dedicação ainda faltam para alcançar aquele objetivo que você imagina e, não menos importante, é fundamental saber como você e sua música soam bem. Pra atingir esse ponto é preciso estar aberto ao sofrimento de se encarar periodicamente em gravações demo, gravações de estudo e de ensaios. Se observar sem orgulho ou preconceito. É difícil… porém extremamente recompensador.

Além disso, é importante conhecer bem seu processo, como você rende mais. Qual horário, quais situações, qual ordem de músicas, por quanto tempo. Um intervalo na hora certa às vezes salva (e economiza) mais horas de gravação do que qualquer outra coisa.

É preciso se preparar e se conhecer. Saber os limites e limitações. Saber que talvez (e muito provavelmente) hoje você ainda não vai soar como um grande músico que você admira, mas não perder de vista essa exigência alta de qualidade sem se maltratar em busca de algo impossível (por hoje). Manter os estudos e o foco, se ouvindo com frequência para saber como soar da melhor maneira, da sua melhor maneira.

Posso garantir (por experiência própria) que, dos três fatores que citei acima, o último é com certeza aquele que dá mais resultados no médio e longo prazo. Não dispensa uma boa pré-produção, mas garante que se faça tudo quanto for possível da melhor maneira. O resultado e o processo agradecem. Saímos mais satisfeitos e com gravações melhores.

Pra fechar, acho fundamental dizer que é importantíssimo trabalhar duro sempre, mas muito mais importante é estar atento a como se trabalha.

 

 

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