Continuando a série de posts sobre produção, hoje vou contar um pouco sobre o planejamento artístico de um projeto musical.

Dentro da fase de pré-produção, isto é, no período que antecede uma gravação, é de extrema importância planejar e prever o maior número de detalhes relacionados ao produto final. Desta forma, é necessário imaginar como deve soar a música final e buscar referências para que todos os envolvidos entendam claramente os objetivos de cada parte e sua relação com o todo. Nesta fase há várias formas possíveis de agir e elas normalmente variam de acordo com o estilo/gênero a ser gravado, a finalidade da gravação e o nível de experiência dos músicos. Projetos de música clássica terão uma pré-produção completamente diferente de projetos de música pop ou música eletrônica. A diferença nestes casos se dá por dois motivos, que podem ser expressados por duas perguntas claras:  1) qual a melhor maneira de gravar essa música? e 2) como fazer essa música soar da melhor forma? 

Passei os últimos meses me deparando diariamente com estas questões. No meu caso específico a primeira era um pouco mais simples de responder. Vou começar por ela.

Qual a melhor maneira de gravar essa música?

A melhor maneira para gravar o grupo que eu estava produzindo (www.rafaelhomaz.com/septeto) era ao vivo, quero dizer, numa situação em que todos os músicos pudessem tocar ao mesmo tempo, mesmo que em salas diferentes e se ouvindo através de fones. Neste tipo de gravação alguns tipos de edições ficam impossibilitadas, mas é possível alcançar níveis de expressividade e espontaneidade bastante altos. De todo jeito, essa forma de captar o áudio exige um pouco mais dos músicos, se aproximando mais a uma situação de show ao vivo, com uma exigência maior de concentração já que algumas edições individuais não serão possíveis e caso seja preciso todo o grupo deve executar novamente.

Como eu já estava definindo o repertório, ou pelo menos as linhas gerais, e tinha feito uma demo no ano anterior (seria uma pré-produção da pré-produção?) já tinha experiência em como essa captação poderia ser feita. Decidi, junto com o técnico de som e dono do estúdio, o querido Mario Porto, como faríamos a captação ou pelo menos como seriam as diretrizes gerais até ouvirmos o som pra valer.

Como estamos falando de gravar e este projeto também incluía a produção de alguns vídeos das músicas, acho importante marcar aqui que o vídeo também fez parte (e uma parte importante) desta pré-produção. Gravar um CD não é simples, com 7 músicos tocando ao mesmo tempo e gravando vídeo… Foram pelo menos 2 reuniões grandes e um sem número de mensagens de whatsapp pra definir junto com o Rafael Scucuglia, da Raava Audiovisual, como seria captado e editado vídeo.

Ao procurar respostas para esta primeira questão naturalmente já estava me preparando para responder à segunda. (é bem verdade que a segunda é mais importante e engloba a primeira, mas pensar nelas separadamente dá mais força à produção, tirando o peso da gravação somente, afinal ainda estamos na pré)

Como fazer essa música soar da melhor forma? 

Acredito que o mais importante num álbum é que ele expresse com clareza e profundidade as buscas estéticas de um artista. Pra isso, considero fundamental que o artista (neste caso, eu mesmo) esteja envolvido dos pés à cabeça com o projeto por um período. Não acredito na produção de um disco que dure dois anos… Mas também desconfio de um disco concebido e gravado em duas semanas.

Pra mostrar com clareza esta busca estética existem alguns fatores essenciais como: escolher bem o repertório; escolher bem os integrantes do grupo; fazer arranjos que demonstrem as potencialidades do repertório e dos integrantes do grupo; escrever os arranjos de forma que os músicos entendam com facilidade e se sintam estimulados a contribuir com o som.

O que vem depois disso e antes da gravação é um monte de trabalho pesado: compor, compor e compor; arranjar; editorar partituras; revisar, marcar ensaio, imprimir partituras, revisar, ensaiar, gravar ensaio, ouvir, revisar, ensaiar, ouvir, revisar…

O número de ensaios deve ser compatível com a realidade que os participantes do projeto vivem. Não se faz um álbum de estréia com dois ensaios… Por outro lado, você não vai convencer músicos super experientes a ensaiar semanalmente durante seis meses antes de uma gravação. A quantidade e a qualidade dos ensaios determina fortemente o resultado final. Isto, é claro, quando estamos falando de um repertório de música que se grava ao vivo, valendo… Quando se fala de música gravada em camadas (overdubs) a pré-produção aponta pra outros caminhos, similares aos ensaios, como gravações guias, testes de timbres, revisões e mais revisões.

Neste período de pré-produção, portanto, trabalhei procurando definir um conceito para o álbum, isto é, escolhendo como eu gostaria que este álbum soasse desde as composições, passando pelos arranjos, a definição dos músicos, a direção artística, a forma de captação, escolha do estúdio e planejamento dos vídeos.

Espero que este momento esteja sendo produtivo!

Vou escrever em breve sobre o processo de gravação. Até lá!

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