Olá!
Hoje quero dar início a uma série de postagens sobre os processos da produção musical. Os posts vão abordar diferentes etapas da produção e vou mostrar aqui como tem sido a minha experiência com eles, especialmente através do último projeto que estou envolvido: a gravação do CD do meu grupo, Rafael Thomaz Septeto (www.rafaelthomaz.com/septeto).

Para começar vou falar sobre a parte mais importante de qualquer projeto: a Pré-Produção. (esta parte é tão importante que vai ser dividida em dois posts).

A pré-produção é o momento onde se planejam e se definem todas as ações de uma gravação, seja ela de um Single, EP, CD ou qualquer outro formato. Se trata da parte mais importante do projeto por ser o momento onde ainda é possível mudar de ideia, onde é possível corrigir erros e defeitos e onde se estrutura toda a ação das próximas etapas. Uma pré-produção bem feita é sinômino de um resultado final favorável, mas acima de tudo é a garantia de um processo sem traumas e horas infinitas de aborrecimentos.

Para mim esta fase da produção pode e deve ser dividida em duas frentes diferentes de trabalho: o planejamento executivo e o planejamento artístico. Nos tempos áureos da indústria fonográfica as grandes gravadoras possuíam equipes inteiras dedicadas a cada um destes setores, produtor executivo, assistente de produção, equipe de marketing, planejamento de carreira, arranjadores, maestros, orquestra contratada, engenheiro de áudio, produtor musical, técnico de gravação, mixagem, etc… Bem… Hoje as coisas mudaram e normalmente estas tarefas estão na mão de uma ou duas pessoas.

Neste projeto contei com o auxílio luxuoso de um produtor executivo (Guido Barella), que estava desde a formatação do projeto dividindo comigo as tarefas da produção executiva. O planejamento executivo, neste caso, se trata de organizar e prever toda a logística e estrutura necessária para que sejam possíveis as atuações artísticas e que as performances de todos os envolvidos possam ser levadas à sua qualidade máxima. No nosso caso específico tratava-se de um álbum de 10 músicas com sete músicos envolvidos. Teríamos que conciliar agendas e interesses para que fosse possível chegar ao momento da gravação com tudo pronto e, em pouco tempo (por conta das agendas corridas de todos), sair do estúdio com tudo gravado. Além disso, tinhamos alguns agravantes: dois dos músicos moram em outra cidade, o que aumenta as preocupações com tempo de deslocamento e diminuem o tempo líquido de trabalho conjunto; como se já não bastasse, um dos músicos viria de férias dos Estados Unidos para cá pra gravar com o grupo e teria que ir embora nos dias seguintes à gravação… Ou seja, se não houvesse um bom planejamento esta gravação estaria fadada ao fracasso.

Além das atividades de planejamento logístico, o planejamento executivo na pré-produção inclui também acionar e direcionar a produção das outras atividades necessárias à realização de um álbum: a) contratação de artista gráfico para o álbum; b) definição e contratação de estúdio e equipe para captação de áudio e, neste caso, também de vídeo; c) liberação de direitos autorais; d) contratação de empresa de prensagem.

Não menos importante é a necessidade de planejar como serão feitos os gastos, planejar o orçamento. É importantíssimo que nesta etapa de pré-produção todos os custos do projeto sejam previstos e revisados para que todos os envolvidos recebam de forma correta e que não aconteçam surpresas nas etapas mais avançadas da produção, que são muitas vezes impossíveis de contornar. Um bom orçamento (não em termos de quantidade de dinheiro, mas de qualidade na aplicação da verba disponível) é fundamental para que o processo todo transcorra da melhor maneira possível. É preciso sempre adequar os custos à realidade dos valores disponíveis para investimento, os exemplos são inúmeros: de nada adianta gravar no estúdio mais caro com os instrumentos mais baratos; também não resolve contratar o melhor engenheiro de mixagem se a captação foi mal; da mesma forma, não adianta contratar músicos da mais alta qualidade se as composições e arranjos não estão bons; também não funciona bem gastar muito dinheiro na masterização de um material que não foi mixado adequadamente; etc…

Por último, eu destaco a atividade mais importante de todas dentro do planejamento executivo: selecionar uma equipe competente e confiável. Esse é sem dúvida o aspecto mais relevante de todo o processo de produção de um álbum. São pessoas com quem você vai conviver nos próximos meses e em quem você vai precisar confiar para que o resultado seja alcançado. Todas as pessoas envolvidas contribuem para o resultado final e é essencial escolher trabalhar com aqueles em que se confia na competência, mas também onde haja comunicação fácil e convivência agradável.

Todos estes processos são de extrema importância para a realização de um trabalho de qualidade. Eu, como músico, muitas vezes me canso destas atividades extra-musicais, mas tenho a certeza cada vez mais forte que um bom planejamento pode aumentar muito a qualidade sonora de um álbum, especialmente porque nesta fase estamos nos preocupando em planejar todas as atividades e assim deixar toda a produção mais fluente. Isso gera mais conforto para todos que estão trabalhando no processo, é sem dúvida mais saudável trabalhar em projetos bem planejados (experiência própria), onde o ambiente é propício à criação e à boa performance, e os imprevistos podem ser sanados com certa tranquilidade.

No próximo post vou falar mais sobre o planejamento artístico. Até lá!

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